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O Poeta Erótico

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Podias ter nascido no mar azul
de acordo com os parâmetros do amor
pelo corpo pálido esculpido que desculpa
maior crime que pousar-te os olhos ígneos

nasci no caótico entulho, sabias? Vivi
na ânsia de encontrar-te, não em brancas
páginas dos livros que falam o desconhecido
nessa altura evaporavas nos meus sonhos

não quererei dizer-te inteligências
apenas que meu beijo revelasse o quanto
ocupas meus sonhos verdes de adulto

queria que fugíssemos para ilhas desertas
subindo escadarias de degraus lascivos
vigília no teu corpo esbelto, ó Vénus

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É quando a noite chega que em ti penso

a minha mão fingindo ser a tua
o sangue ferve os músculos ficam tensos
faz cócegas no céu da boca à Lua

sinto o batom vermelho dos teus lábios
a linguagem da língua linguaruda
o cálculo da cópula no astrolábio
altura em que chegavas às alturas.

teu rosto junto ao meu fazendo olhinhos
meus olhos nos teus seios fazem ninhos
de beijos de esponjosa sonoridade

teu corpo tão floresta tão de toca
é onde anda perdida a minha boca
como se andasse em busca da verdade






(imagem retirada da internet)

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na mala de viagem levo a alegre infância

que a pouco e pouco vai ficando mais distante
a rua onde cresci sem ter grande importância
é de todas as ruas a mais importante

a minha avó, mais nova, que por mim gritava
meu avô fumando cigarro após cigarro
o negro alcatrão com branco giz riscava
rectângulos dos jogos que hoje não apago

levaria a viagem as memórias na mala
para um país longínquo, ou inóspito deserto
poderia recordar a infância que vivi

pois que esta vida adulta é voz que não se cala
um grito que sufoco e me mantém desperto
a minha doce infância, a rua onde cresci

 

 

 

 

(imagem retirada da internet)

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És a cidade branca que amo

deitas-te, estendida, perfumada
de coco, toda relógio de cuco

em ti há ruas estreitas espaçadas
de tédio e vácuo, onde o bulício
desmaia na curva dos teus seios

não fazes pausas, a avidez
da baunilha e caramelo
que pões no beijo ameno

amável, amido devoradora
de água da cozedura
onde ferves o meu coração

a solidão áspera, o desespero
rútilo, o bando negro de corvos
pairavam por cima de mim

quando escrevi isto, quando
te beijava levemente as pálpebras
descendo e descendo como

no ar brincam as andorinhas
rompendo a luz do entardecer
com a cor do teu altar mor

conseguirei despertar da letargia
do verão passado presente
como se trouxesses água no bico

desses becos líquidos, onde sufoco
deleite anfíbio, morte à chegada
pressão do dedo que indica a dor

nunca bebi tanta água como de ti
poço fundo onde à noite vejo
o reflexo do meu rosto e da lua

quererei romper na madrugada
da tua pele clara e ser sangue
correndo no azul das tuas veias

dentro de ti há salas de espelhos
consigo variar-me agarrando a crina
da amazona, terminal da espuma

acre beijo, roçagar de vestidos
fantasma, alegoria, fado de fada
faca encostada à garganta

lâmina sedenta de sangue
onde poderás degolar-me a vida
inteira, sempre que o desejares

como será cair aos tropeções
na escadaria que construíste
para que atingíssemos o zénite juntos

e caíssemos na cama molhada
dois proscritos defuntos
num buraco que o tempo escavou







(imagem retirada da internet)
 

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Das paredes imaculadas

saíam noivas vestidas de
branco
sonhei que se deitavam
a meu lado se misturando
num sonho líquido de fogo
traziam aves na boca
tigres nos olhos
cobras nos braços nus
frutos nos seios
que se reanimando entre elas
trocavam beijos lascivos
as mãos mágicas
faziam-me crescer
não esquecerei o bouquet
e nádegas, do perfume
perverso da pele e saliva
sol de gemido morno, manso
doce de corpo demoníaco
inflamado, expedito
turvando a realidade insípida
abriam-se em ostras molhadas
sucos e sumos extraídos
como minérios e adubos
fazendo-me crescer, levitar
preparando-me. Como eu era barro
naquelas mãos altruístas
beijos de fios de baba
molhando envolvendo
no rodopio da língua
as noivas casavam-se
no altar do meu corpo
oferecido ao sacrifício
que fusão confusa
deliciosa de pele e carne
marcha sexual passando
por baixo do arco do triunfo
como as possuía
como me possuíam
não me despertes Morfeus
deixa-me neste fresco
pintado pelos meus neurónios
gastos. Não aceitarei a vida
de outra cor, branco
com sangue dentro
no centro, epicentro,
estremeço, convulso, compulso
ancas, pernas, espera,
apertos, gemidos e mágoas
abertas em sonhos de nenúfares
chorões de lágrimas quentes
Ó doença do sonho
febre do desejo
rasgavam-me ao meio
como partilha da presa
a sensação atrelada ao dia
o romper que há no abrir dos olhos
fechei as portas dos armários
da minha inquieta imaginação

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O poeta erótico vai de úbere
colhe o fruto do olhar puro
mas de máscara intraduzível

o poeta erótico irá de rasgado
peito sentir que a luz o esmaga
na passagem breve da vida

vibrando dedilhados acordes
na guitarra sinuosa improvisa
arpejos ascendentes que sobem colinas

não poderá ser o que aspira ser
lambendo feridas como leões fulvos
com o sal de um mal menor

as árvores dão-lhe sombra e as
que dão fruto, colhe, e as que dão
susto, acolhe, sacode-se e flutua

ele percorre vinhedos verdejantes
de recantos de luxúria praticável
na incúria das horas amargas

inspira o ar, alivia-se da carga poética
erguendo sua taça de vinho produzido
da união dos corpos no prazer

das uvas esmagadas pelos peitos
que se amam, perdidos no abismo
do erotismo

escorre das bebidas bocas ávidas 
beijos húmidos e prolongados
à luz crepuscular indecisa

na depravação das horas gastas
em labores que nos colocam em
labirintos, eu sofro esses beijos 

o entrechocar de sexos esponjosos
espantando o abutre negro da morte
por mais uns dias

que vinho escorre das uvas esmagadas
nos seios nus e másculos peitos
antes do outono monocórdico

vinho de versos, que escorrido
por goelas fundas como se existisse
um jorro ininterrupto de licor

liberta-se o poeta, é príncipe do ar
atirando pedras no lago profundo
soletrando os círculos concêntricos

é ali que poemas interditos fermentam
conseguiria abrir a porta numa nuvem
se imaginasse o beijo de uma Cíntia

Ela que veste diáfana túnica 
aureolada de luar num corpo apetecível
nas florestas encantadas busca Endimião.

da minha boca escorrerá um vinho
aprazível dos meus versos escritos
aos que se amam ébrios de loucura

cresce-me no pórtico do corpo 
espécie de pila dórica dura
à procura desse escuro morno de  rubi

celebro Bacanália equilibro-me no voo
de um pássaro que sobrevoando intima
altos voos altas quedas

 

 

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O casal perfeito feliz de mãos dadas

os filhos saudáveis na cauda de cometa
vão rindo os petizes por tudo e por nada
por baixo da mesa a mulher toda aberta

ao lado o rapaz louro braços tatuados
sorri à namorada infeliz tão matreiro
à mesa, ela olha-o por tudo e por nada
ele não, ele olha o mar – deve ser mariheiro.

a mulher roliça de perfume abafado
o homem de pele curtida pelo sol
talvez pescador, Julieta e Romeu

e aquele homem de rosto triste, isolado
numa ilha trancado dentro dele próprio
escreve, numa mesa a um canto, esse sou eu

 

 



(Fernando Pessoa - José de Almada Negreiros)  

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Os meus dedos
desapareceram
no lago apertado
chamado
ferida

escreveu-se o amor
num papel branco de
loucura em gotículas

estávamos perto
um do outro
como a vagina
do anus
pulaste
para cima do meu
colo
no cume do                                                     
desesepero de querer-te
impermeável
da chuva do tempo
odor corporal
meio mel,
meio mal
e não sairíamos
de cima um do outro
se não fosse o terem
batido à porta. Fui
espreitei pelo buraco
da fechadura mas
era só
o tempo
que passava


 

 

 

(imagem extraída google)

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Tudo se acaba
novo ciclo se inicia
tudo é nada na vida inútil

poema número cem
é zero
parto sempre do princípio

como dois olhos verdes
são duas algemas
irresistíveis

ou os ombros finos
de mármore branco
e rosas líquidas

revisto-me de outono
monótono angular
varrendo versos nas ruas

virá o vento soprá-los
imperativo, frio
no inverno próximo

de enfrentá-lo sem
força nem fôlego
onde se revelará refúgio

hiberno como olhando
de frente, os olhos verdes
no poema cem

cheguei ao cume
do nada, lúcido
reiniciar-me-ei em breve

no crepúsculo

 

 

 

 

(imagem retirada da internet)

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Quando vens vestida de cravo

vermelho, encravo na vida
dá-se a revolução no sangue
dos sentidos aos gritos
pelas ruas do meu corpo

quando vens vestida de lírio
consigo instalar o silêncio
na caótica equação real
demoro-me nos teus olhos
molhados de febre e delírio

se vens vestida de gardénia
assusto-me não esperava
que viesses vestida de noiva
escolho a praia como altar
o mar por testemunha

se vieres vestida de rosa
vermelha é possível que
te arranque a primeira pétala
que vier parar-me às mãos e
tapar-me a boca

mas se vieres vestida só
com a tua pele nua eu juro
que vestirei igual a ti
faremos de conta que
um está vestido do outro




(imagem obviamente retirada da internet)

 

 

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Bem sei que irei deitar-me hoje contigo

tu, no céu por cima, eu cá na terra
a poesia melancólica por abrigo
a solidão o túmulo onde me encerro.

bem sei que irei louvar-te em versos líricos
querendo desmanchar-te essa postura
de rainha que ilumina à noite os ricos
e aos pobres de dia pura impostora.

anseio o strip tease que costumas
fazer-me à janela onde irei ver-te
como se me exibisses níveo peito

e quanto mais me inspiro mais te aprumas
nas horas amargas irei escrever-te
onde sou teu poeta mais que imperfeito


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Sinto deitado na cama o

fluxo sanguíneo nas veias
deixando o calor nos lençóis brancos


como homem de Vitrúvio abro os
braços, gela-me o frio, dormem nuas
a insana Insónia, a sanguessuga Solidão

a noite será longa alongo-me
ao comprido deitado no exorcismo
como se travasse a vertigem

pensar doloroso
os pensamentos martelam-me na
cabeça até provocarem dor física

pairava nos papéis poemas escritos
antigas reflexões a tinta permanente
sabidos de cor por ninguém

fugiu-me a vida como esta ave
frágil foge-me constantemente da mão
ainda morno quase morte.

deixo-o fugir, não falarei da
lua, essa, anda perdida na
floresta à procura de Endimião.

ando à procura de mim próprio
acudo o corpo torpe, a pedido
das duas devassas inúteis

emplastro e película aderente
a primeira quer infligir-me dor
a segunda quer atenção, endoidecer-me

saíssem das paredes noivas
vestidas de branco, me devorassem
como hienas a noite seria a presa

não eu







(imagem etc, etc, etc, da internet)

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Meus olhos ficaram presos como peixes

na tua rede magnética e agora salvá-los
se a tua perfídia é o delírio labial da lua
para levar-te à míngua versos das amoras

porém prendê-los não significa que
sonharei poemas maiores que o mundo
nem cuidarei da roseira que desabroche
no teu corpo covil na próxima primavera.

boca fendida de romã rubra tem o
charme de rainha sonhadora de copas e
culpas-me por cantar canções ao luar

outros dias virão para espalhar-te o caos
nos lençóis que cheirem a lavanda e a mim
depois que me fundiste no teu corpo

 

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O brilho dos teus cabelos à luz do sol
há escovas e pentes nos meus dedos
escovo-te e sinto o arrepio da tua pele

pois pela pele vejo se estás viva
pela ponta dos cabelos se estás farta
chamo-te menina malvada, falo-te
na terceira pessoa do singular e
ninguém tem nada com isso

nossos jogos eróticos, alguém os vê?
os beijos devassos que me dás
alguém mos dá?

pensava nisso quando desmanchava
os cachos rebeldes dos teus cabelos
em carícias fecundas do desejo

de imaginarmos juntos a infância
perdida e enterrada nos jardins
da vida, quero-te desvairada
a saber a saliva e sal insolúvel
preciso que leias meus lábios
ninguém tem nada com isso

se te inclino o corpo é porque te adoro
se me estendes o seio é porque procuras
que eu seja poeta a morrer de sede
e o orgulho inapto ficará contigo,
os círculos que eu faço com a língua
concêntricos lembram nas águas do rio
quando atirávamos pedras juntos
em simultâneo flutuando num sonho
de amendoeiras em flor distantes daqui.

o bulício citadino, o rumor da saudade
os jardins floridos no poema oblongo
que falava da tua expressão facial
peculiar quando doce te penetrava
ouvindo murmúrios aquáticos soltos
dos sexos molhados movidos por um
amor explosivo de luz e cor escrito
de fogo cravado nas tábuas do coração

não quererei ser alvo de sanções
nem dalilas ou embargos inúteis do
teu humor imprevisível sentimental
decretados por ti, minha primavera
poderás (ch)amar-me estreito
canal de suez na imaginação, poderás
ser firme na convicção surreal e absurda
de não dizer-te palavras brancas de cal
na nossa casa erguida com poemas

deixa-me criar-te falanges e falanges
de versos que empunham larissas ferozes
que te cravem bem fundo agudamente
no peito o que sinto, aderindo ao
clube dos poetas mortos por amor.
Se pudesse trazer-te as vestes da lua
pendurar-te ao pescoço de cisne um rubi
roubaria para ter aberta de fome a tua boca

redondo, macio, cortez, bondoso
as mãos percorrem a rota da seda
das nádegas, nas carícias soltam-se a
mocidade, juventude, do amor de lume
apagado, o benefício do beijo ardente
a refrega do corpo, o conhecimento
o sabor, a frescura, o teu corpo
fazendo de mim sábio convulso.

prendes-me os pulsos, fada, heroína
mandrágora mandíbula de leopardo
fêmea, magnólia ardida, imploro-te
esqueces nem te arrefeces, continuas
por cima relâmpago no céu, felina
escada em espiral com a vertigem célica
de amealhares nuvens e a tempestade
em rodopio, ó Valquíria, deidade lírica
só me lembro do movimento solto
das tuas ancas firmes de feroz amazona

preso aos lençóis, preso no subsolo
feito bicho esmagado pelo peso do corpo
invocavas a torrente mágica, o final febril
iluminada descendo degrau a degrau
sedutora, senhoril, depois que
atingiste o clímax e te lançaste nos meus
braços como se tivesses enchido de luz
uma jarra de prata e me entornasses
no corpo de sombra teu sorriso feliz

 

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Longe de ti eu era exilado
às portas do paraíso perdido
riscava os dias
que da última vez

estivemos juntos
apertados num só
nó górdio

Longe de ti tornei-me fantasma
conto para assustar crianças
antes de ti vivia sóbrio
em segurança de uma vida
de fausto e mentira

Longe de ti eu murmurava
à janela o teu nome em segredo
ao ouvido da lua de atalaia que
se soubesse o quanto te amava
viria cortar-me o abastecimento
de luar no lar

Longe de ti era silêncio
túmulo de rei sepultado
no chão da igreja

sonhava os nossos rostos juntos
o perfume da tua pele
converter o ar num jardim botânico

Longe de ti abeirava-me de
tornar-me mendigo, olhando
o amor com olhos licantrópicos
de raivoso fogo tentando entender
os desígnios desiguais
oxalá divinos

Longe de ti, lírio do vale
era palácio cheio de ninguém
não creio em karma nem
pré-pagamento no destino
ou éramos um lar de sempre
ou casebre em ruínas

de nunca mais

 

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Cuidado germinas em ti perigo

nesse bocado de veludo imaginário
consegue-se tudo, às vezes destruímos
anos de Roma erguida num beijo furtivo

às vezes o tempo solidifica-se, as horas
amargam, cristalizam-se, o coração
outrora temperado refugia-se na bebida
rósea de mamilo na boca, divino vinho

conseguimos a sedução primitiva num
poema escrito no papel escorregadio
enfiado ainda nos lençóis da intimidade
consegue-se dobrar aço no solilóquio longo

mas o toque acidental, a febre alastrando
a inflamação do corpo, o desiquilíbrio dos
astros, aproxima-se o desastre ou remédio
do remorso a revolver-se na areia movediça

no poema é possível trazer-te de limousine
servir-te champanhe e morangos frescos
fora dele, cautela, poderás ir a pé num verso
ou removeres o vício do sangue ó orquídea

mas despida despisto-me, és a escultura
esculpida pela atractiva solidão do génio
entre a distância ambígua de sermos ninho
de cegonhas sem trazermos ramos no bico






(imagem pescada no mar da internet)

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No interior das tuas coxas, 
meu universo expande-se,
funde-se no teu

transformo-me em lago de águas mornas
onde os peixes abocanham os corpos nus
e no lugar dos beijos nascem nenúfares

há rãs nos meus dedos
pulam alegres nos teus seios suaves

juncos maleáveis se dobrariam
na beleza estonteante do teu corpo

carvalhos firmes tombariam por ti
se pudessem
pediam às
tempestades e vendavais
que os fizessem tombar para ter-te
nas ervas viçosas verde vibrante
no musgo molhado de inverno imaturo
e líquenes ressequidos
nos troncos grossos das árvores esguias

há parques temáticos nas tuas pernas
galerias de arte nos teus braços macios

jogos aquáticos na tua vulva
lúdicos repuxos imprevisíveis

algodão doce na tua boca,
frutos silvestres nos teus lábios

teu corpo é uma cidade abastada
próspera fervilhando de vida

desenrolas palavras e colocas no vazio 
vão e voltam ao lugar, boomerang sensual
devolvendo o dobro do que dás e dizes
ávida, és ávida, sem dúvida, dádiva da vida







(foto extraída de mademoiselle Internet)

 

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És a noite que cai sobre mim

há festas de cidade nos teus olhos
olha-me teu corpo labiríntico
vê-me o minotauro desejando
encarcerá-lo no interior.

o suspiro da boca vulcânica
os vapores nas mãos e cabelos
dá-se a condensação no quarto
sente-se o ar saturado
refugias-te na carícia das costas
refugio-me no delírio dos escolhos

ligados à corrente enérgica
chocamos um contra o outro
no presídio da carne, no comício da febre
talvez mais tarde, não sabemos
estaremos eternamente juntos
num conjunto de estrelas
saltando nas nuvens nevadas
onde escreveste nas páginas
do caderno que apanharíamos
o mesmo comboio estelar

o teu coração é um tambor de guerra
bate descompassadamente
todas as guerras se consagrassem
no sangue não vertido no lugar
à procura um do outro unidos
em uníssono num só grito

explodimos e sabemos de cor
as canções que o universo compõe
cânticos triviais de A a Z
escritos por amantes que nunca
se perderam um do outro
na floresta do vício, é tempo de
saber a mar de vez em quando

és o túmulo onde vou morrer
sepultas-me nos braços até
o sol ansioso começar a bater
à janela baça, depois que fundimos
os corpos e os transformámos
em partículas de luz laranja

o amor poderá ser eterno
mas quero saber quando expira

 

 

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Teu corpo a recostar-se

no cadeirão subentendia-se
o último golpe

fundo, como poço
de atirar-se o balde e
recolher água de língua

gostavas que te abrisse
as pernas, a tua voz
molhava-se de lascívia

o sal, o suor, no beijo
era verão, o calor entrava
na refrega física

a química explosiva
de haver fósforo nos seios
túrgidos obeliscos

dois dióspiros que pedias
que os mordesse e ficasse
com o sumo na boca

como ultimato
pedias-me por piedade que
impiedoso fosse contigo

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embate-se na parede quando o poema é escrito

vezes sucessivas na penumbra linguística
como se tacteasse o escuro de tinta preta
desliguei os sensores dos sentidos

encho um balde de água fria e apago o
lume vivo da fogueira que me queimava
deixando-me exposto à cólera do corpo
aos caprichos da carne aos caprichos da fome

respiro, deito-me na areia fina, este sol
beija-me o corpo, enrola-se Setembro
ao longe uma gaivota ri-se do erotismo

aceito, sinto o ar entrar-me nas narinas
como se florisse um sonho de amendoeiras
num coração primaveril fértil em sonhos

 

Arquivo

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