Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Poeta Erótico

68051010_medium.jpg

 

Os calorosos dias em lúbricos lençóis
dedilhadas brumas de acordes múltiplos
o cronómetro avança, a solidão amplia-se
nos astros, como a fome do lobo faminto

dias de suor e langor demorado
quero-os agora, esses beijos sensuais de
línguas delinquentes depravadas
de maldosos ventos arruaceiros

quero a mecânica bruteza dos corpos
a flâmula nascida do beijo silencioso
a sedução constante ridícula do macho
o repúdio fingido ridículo da fêmea

o acasalar à sombra dos vinhedos
como autênticas festas de Bacanália
onde o prazer se bebia como vinho
onde a vida e o amor se derramavam

quero o corpo da mulher ilha branca
pérola de falésias esculpidas pelo mar
das ondas embatendo nas rochas
pétreo recuo e avanço na espuma

quero o corpo a transbordar de cheio
de libações de fluídos, recuso-me a
perder tempo a caminhar por ruas
de frases labirínticas de nada.

quero o colectivo amor dos corpos
roçar-me pelas searas de carne e pele
misturar-me dissolver-me ser molécula
de água retesando o arco cem mil vezes.

a dura erecção durável dolorosa
como se divina a mulher fosse Medusa
me petrificasse deixando-me íngreme
apertado num infinito estreito

que a mulher coloque a pila na boca
do homem que escolheu dormir com ela
e na refrega erótica o trate como escravo
mas também se deixe escravizar por ele

quero a amplitude maior dos ângulos
das pernas uma forca onde me enforque
onde me falte o ar por estar a dar prazer
de sorver sem sequer poder parar

quero ser a roupa íntima das nereidas
e relembrar que somos mamíferos
mamando sôfrego nos peitos cheios
de longa vida com romântico deleite

quero ser a gota que escorre no veio
chegando ao ventre levado aos dedos
depois bebido por uma alma ousada
que reprove não provar tudo na vida

quero a nocturna e líquida indecência
da loucura enraivecida quando amamos
e se puxam cabeleiras e as agitamos
como no ar se agitam notas musicais

quero tatuar o erotismo na pele
fora do poema, nas tuas costas, sonetos
de amor, cheio, puro e até impuro
porque não haverão dias que não chova

quero as rendas diáfanas, translúcidas
levantando levemente o véu do corpo
que aguçam o apetite e nos transportam
num comboio de loucura e ansiedade

quero que a mulher desabe seja nuvem
na terra do homem onde se enterra
escavando fundo até jorrar água
semente de amor, licor da vida

quero saquear incendiar a cidade
no corpo feminil de luminoso brilho
profanar a rósea sepultura
onde guardam e ocultam segredos íntimos

quero mamar no seio da Liberdade
que ao mamá-lo me revele o mistério
e com os dedos tocar-lhe as partes íntimas
por baixo da pouca roupa que veste

quero assediá-la numa cama desfeita
de poemas nascidos do fogo húmido
no espaço onde possa penetrá-la
num leito conjugal etéreo límpido

não quero rimas óbvias e açucaradas
se rimasse então que fosse a irmã gémea
da Liberdade despudorada a juntar-se
a nós na cama, a Loucura libertina




(imagem infelizmente retirada da internet)

 

24 comentários

Comentar post

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub