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O Poeta Erótico

Caminho anónimo pelas ruas de Lisboa 
agrupam-se pessoas como cachos de uvas
é de noite que as mulheres mais se aprumam
é de noite que se arrumam mais os seios
desabotoam-se, impudicos, várias castas
guardei-os no poço íntimo mais fundo
matéria prima para o poema proibido

embrenhei-me por vinhas e pomares
como se mordesse as uvas mais frescas
trincasse as maçãs mais doces
num imaginário secreto, contemplei
os troncos de árvores pareciam-me belos
cheguei a pensar que eram putas muito antigas

o vinho entornava-se nos copos de vidro
olhos efervesciam de sangue, soltavam-se os corpos
não esquecerei as duas belas africanas voluptuosas
filhas da selva, belas como a noite quente
desarrumavam lobos que as olhavam famintos
no calor doentio, os vestidos femininos encolhiam-se
escrevia de memória os versos mais sórdidos
meus lábios sequiosos reclamavam vinho
corria-me o sangue desenfreado e sujo

vi novas modelos de capas de revista
fumavam, bebiam, desnudavam-se vestidas
mães com trajes mínimos, de palpitantes seios
que espreitavam curiosos como turistas
a namorada do rapaz novo tocando na amiga dela
o tesão em crescendo espelhado no rosto dele
da noite promissora pintada de fantasia
iam para o desconhecido deitar-se os três
numa cama feita de foda imprevisível

verde juventude, fugiste-me, tornaste-me ridículo
olho em volta, tudo me é vedado, tudo me é interdito,
esta beleza ao lado de vestido preto
tatuada, decotada, fútil, fácil, dúctil
me rejeitaria se me aproximasse
sem juventude, sou leproso que deambula
vagueio por corredores de museus eróticos
aspiro perfumes femininos e másculos
há uma orgia clandestina no bordel da minha mente
fértil, todos se despem e iniciam
o ritual, a dança, acende-se a fogueira erótica
consigo que se tornassem fornicadores exímios
até espantarem o Tédio e as horas amargas
venho-me na boca do mundo que me rejeita
se declamo um verso, virão colocar-me
de quarentena. Melhor assim, corro as cortinas
do meu poema de whisky e aguardente

 

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